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terça-feira, 1 de setembro de 2015

O quadro

O QUADRO
Troféu "O Bandeirante" - primeiro lugar no Concurso de Prosas

Luiz Jorge Ferreira
(Osasco - São Paulo

De Lisboa a Londres fui andando. A nado fui de Belém a Macapá.Voando fui de João Pessoa a Quixadá. Hoje neste apartamento pequeno em que as paredes, pintadas de roxo, têm muitas manchas amarelas provocadas pela umidade Amazônica. É que sei que o tempo passou, enquanto eu calçava e descalçava os sapatos surrados. Manchou-me também.
Hoje corro descalço, olhando de suas janelas que dão para a Av Ernestino Borges, as da frente. A da cozinha, abrem-se para a Rua Iolanda Marcucy. A do banheiro, dela se vê a Rua 14 de Março, e a da cozinha tem a paisagem da rua Cel Lisboa, com o telhado descorado da casa do Braz.
Estou em meus oitenta anos. A cabeça já funciona aos solavancos e os cabelos, estão úmidos, produto desta fina garoa, que teimosamente chove sobre mim. Ela me abriga a usar permanentemente um guarda chuva aberto, mesmo dentro do apartamento.
Caminho devagar, entre os dias e as noites. São seis aparelhos de televisão ligados, cada um em um canal. Oito rádios sintonizados nas oito maiores capitais do mundo que enchem a casa de um barulho estéril de Mandarim, Russo, Árabe, Japonês, Hebreu, Grego, Inglês e Italiano.Tenho dois sois, um amarelo e outro castanho, que se reflete em um jogo de espelhos, que dependurei entre a cômoda e a estante cheia de bíblias sempre movimentadas as suas paginas por um amontoado ventiladores, que mantem a temperatura da sala quase meio grau abaixo de zero. Caminho devagar entre as esculturas Maias e Incas que coabitam comigo na sala, entre cabeças empalhadas de orangotangos e chimpanzés. Por isso perco com facilidade meus chinelos. E quando vou pé ante pé para o local em que guardo meus discos e os ponho na vitrola em trinta e oito rotações por minutos rangem as tábuas do assoalho. Fazem dueto com os estalos de minhas articulações, quase enferrujadas. Ouço Mario Lanza em um dueto estranho com minhas próprias barulheiras. Abro as janelas muitas vezes e o ar de fora bate na minha própria umidade e volta criando um pequeno ciclone que apelidei de “Equadorzinho”.
Um dia lendo uma das dezenove Enciclopédias e fazendo cálculos com uma régua fisiogeografica percebi que os trópicos de Câncer e Capricórnio cruzam-se aqui, talvez por isso, este prurido que me castiga determinados dias do mês, e que me fez ficar amigo de uns pelicanos, que também se coçam.
Eles pousam na janela, aquela que abre para a Av Ernestino Borges, em alguns dias do mês. Comecei a morar aqui quando fiquei viúvo. Ela morreu e deixou um enorme vazio que preenchi com garrafas de Rum e desenhei sua silhueta. Para formar o par de peitos foram necessárias mais de cinquenta garrafas. Era uma mulher abastada que deu-me dezoito filhos e pretendia dar-me mais se não se houvesse tocado fogo lixando tanto as unhas. Quando fiquei só pretendia mudar-me o mais cedo possível, mas a amizade com as águas vivas do lago do Ibirapuera e a admiração pelas borboletas do Pacoval foram prolongando minha estadia. Hoje sou parte deste Quadro. E olhando a pintura de um quadro feito por Salvador Dali, dependurado no vão entre a porta do nosso quarto e o início da escada que nunca subi, nem sei aonde vai dar. É que percebo que envelheci. 
Não tenho mais vontade para trocar de roupa e agora me cubro, com pelos espessos e longos cabelos, que pouco molho, mas estão sempre úmidos.
Como muito pouco e durmo quase nada. Quando a saudade aperta abraço-me a imagem dela feita de garrafas e assim fico por um tempo. O que tem me cortado demais o peito e o púbis. Mas eu não ligo. O que me incomoda são os filhos. Estes que estão empalhados pelo corredor entre as cabeças empalhadas de Orangotangos e Chimpanzés.
Amanha irei para Osasco aonde enterrarei o Quadro. 

Pele IV

PELE IV

Luiz Jorge Ferreira
(Osasco - SP)












Sobre a mesa uma natureza morta de Paul Cézanne,
E uma janela feita de riscos de giz.
Ponteiros, relógios, tic-tacs e pulsar de coração se encontram
E se atrapalham no porão que o silêncio cria.

Para quê conservo em mim esta pele cheia de nódoas?
Para que guardo passos debaixo de passos,
como caranguejos abraçados a si mesmos, 
achando estranho tudo isso?

Ponho dois copos sobre a mesa,
um para que eu tome,
outro para que Fernando Pessoa beba.

Mas nada há além da mesa,
nada além da janela,
mesmo que eu creia 
que um intenso universo pulsa lá fora.

Nada se arrasta com o “apelido” de tempo,
afora meus pensamentos e minha sensação de onipresença, 
como seu fosse Cristo ou Einstein ou Lavoisier,
ou um dos magos com as mãos exalando incenso e mirra. 

Estou defronte da mesa,
da natureza morta de Paul Cézanne
e de uma janela feita de riscos de giz, 
ela indiferente ao enigma que eu mesmo crio,
como crio a janela que de giz existe apenas no meu imaginário.

De repente fecha suas duas partes do todo. 
Não ouço mais o universo,
com seus trovões, raios e sopros de ventos alucinados.

Agora só o silêncio da sala enche todos os cantos.

Começo a retirar a pele, 
começo ao redor dos olhos. 
Eles têm restos de olhares que caíram 
quando cansaram de mirar horizontes. 
Arranco os que estão mais perto,
e espalho os que estão mais longe.

Vejo que o copo parece ter sido tomado.
Fernando o bebeu ou o tempo que detesto não poder deter
a tempo de terminar de retirar a pele o secou, 
como para me avisar que não sou mais o mesmo
que iniciou a dois e quarenta e cinco segundos 
este fato de escrever?

Olho a natureza morta: parece que flora.
Olho a metade de minha pele arrancada, 
com um tapete jogado ao chão...

Quantos sinais vejo na região das costas,
este pedaço que nunca olhei? 
Quantas marcas, quantos pelos,
quantos anos carregando todos esses? 

Tudo está tonto e noto que todos os passos que dei 
estão amontoados sob a mesa
junto com a pele do resto do corpo.  

E não estou morto. 
Como sei?